terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Paulo Freire, o trabalhador imigrante e o jogo de cartas


Estive lendo a Pedagogia da Esperança, que é uma espécie de expansão da Pedagogia do Oprimido, livro clássico de Paulo Freire que paira um tanto inerte sobre as escolas e cursos de licenciatura do Brasil. Digo isso porque todos gostam de pendurar seu retrato, mas pouco se vê de aproximação entre a educação oficial e os sonhos de Freire. A noção de que a democratização da escola pública se resolve com a matrícula obrigatória de todos os seres humanos numa estrutura escolar autoritária e descolada das comunidades é uma ideia absurda. Os professores podem ser os mais bem-intencionados, estudiosos e experientes do mundo. A infra-estrutura pode ser de ponta. O currículo pode abranger o que já houve de mais relevante na história da cultura e dos acontecimentos políticos e o que há de mais atual na pesquisa científica. Não interessa. Se o aluno não sente sua presença na escola como uma necessidade, se a comunidade não absorve a escola como pedaço seu, o aluno será apenas executor de boicotes e sabotagens. E é justo que ele seja. Poucos minutos com o seu aluno mais indisciplinado, que "não quer saber de nada", fora do contexto de uma aula pode revelar uma pessoa cheia de paixões, aptidões e compromissos. Bagunça é expressão de vontade política!

Não sou contra as escolas. Sou contra a Escola. Até que as escolas possam ser vividas de modo radicalmente democrático, é mais potente que estejamos fora delas construindo outros espaços de formação cultural, moral, política, corporal e intelectual. Matemos aula!

Deixo aqui um trecho do livro citado que transcreve um diálogo de Freire com um trabalhador imigrante anônimo. Me fez pensar no poder dos fliperamas.

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"Tenho uma experiência interessante a lhe contar e de que participei antes de ler seu livro, a Pedagogia do oprimido.

"Sou militante de um movimento político de esquerda", continuou, "que atua dentro e fora da Espanha. Uma de nossas tarefas é a formação política de companheiros imigrantes através de que buscamos nos mobilizar e nos organizar.

"Há um ano, mauis ou menos, juntamo-nos, quatro companheiros e eu, para pensar num curso de problemas políticos e oferecer aos colegas. Discutimos entre nós mesmos, numa tarde de sábado na casa de um de nós, o que deveria ser o curso, quais os seus conteúdos, como desenvolver a matéria. Afinal, tal qual vocês, os acadêmicos, costumam fazer, organizamos tudo para doar aos futuros alunos. Estávamos certos de que sabíamos não apenas o que os nossos companheiros queriam, mas deveriam saber. Não tínhamos, portanto, por que perder tempo ouvindo-os, Tínhamos apenas que comunicar-lhes que poderiam contar com o curso. Precisávamos somente de anunciar o curso e fazer a lista dos interessados.

"De posse do programa elaborado, com horários nos fins de semana, local, tudo, enfim, começamos a procura de inscrições.

"Fracasso total. Ninguém se interessou. Falamos a um sem-número de companheiros, apresentamos a relação dos conteúdos, visitamos vários deles, a quem explicávamos a importância do programa, a importância do curso, e nada.

"Reunimo-nos certo sábado para avaliar o nosso fracasso e uma ideia me surgiu.

"Por que não tentarmos fazer um levantamento, em nossas fábricas, conversando de um a um com um bom número de companheiros, do que cada um mais gosta de fazer. Por que não procurar conhecer as preferências que tinham e o que costumavam fazer nos fins de semana. Seria a partir de conhecimentos assim que poderíamos encontrar os caminhos de acesso a eles e não a partir de nossas certezas em torno do que eles deveriam saber.

"Estabelecemos uma noite, quinze dias depois da decisão de executar esta pesquisa, para avaliarmos o que havíamos feito.

"Na noite marcada, nos encontramos os cinco, trazendo cada um o seu relatório sobre a tarefa realizada. Uma grande quantidade de companheiros gostava de jogar cartas nos fins de semana. Outro grupo gostava de passear, de ir a parques, de almoçar em casas de companheiros, de beber cerveja etc.

"Escolhemos o jogo de cartas como a porta possível por onde passaríamos aos problemas políticos. Desta forma", continuava, cheio de vida, o trabalhador espanhol, "tratamos de nos 'especializar' em jogos de cartas e passamos a participar dos vários grupos que, nos fins de semana, jogavam na casa de um ou outro. Durante a semana nos reuníamos para avaliar a nossa tarefa política.

"Às vezes, durante o jogo, com a carta na mão, sem olhar a nenhum dos companheiros, eu perguntava: 'Souberam o que ocorreu ontem em Madri?'

"'Não', diziam.

"'A polícia espancou e prendeu váarios companheiros nossos porque reclamavam coisas mínimas.'

"Siléncio.

"Eu também ficava silencioso.

"Lá pras tantas, outra jogada, outra pergunta, de natureza política.

"Éramos os cinco fazendo isto, em lugares diferentes.

"Dentro de quatro meses foi possível, finalmente, fazermos uma reunião para discutir se seria interessante ou não organizarmos encontros sistemáticos para discutir política. Éramos trinta os que viemos à primeira reunião em que nasceu, por decisão coletiva, um real curso sobre problemas políticos, cujos resultados têm sido os melhores até hoje."

Ele riu quando lhe disse: Isto prova que, se queremos trabalhar com o povo e não só para ele, precisamos saber qual é o seu 'jogo'.*


*FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido, São Paulo: Paz e Terra, 2011. trecho retirado da p. 178

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